A partir de certa altura ele tinha começado a associar a menina Ivone à bruxa da história da casinha de chocolate. Ele e o Zé eram como Hansel e Gretel, tentados por todo o tipo de guloseimas e forçados a comer até os estômagos doerem. Algum dia ainda iriam parar ao forno da madrinha, que estava sempre aceso.
A mesa transborda de bolos, pãezinhos, queijos, doces.
- Serve-te, filho, que deves trazer fome. Olha, tens aqui popias.
Ele sabe que não adianta resistir. Aquilo é uma ordem.
Mas se há algo de delicioso nisto é ver que nada mudou por aqui. Aqui sim há algo de familiar, de conhecido, de casa. Não fosse a mudança de perspectiva e tudo seria igual. Agora a menina Ivone é mais pequena que ele.
Mas não é só isso. Em quatro anos ele cresceu mais do que em altura e vê mais coisas. Sentado de novo a esta mesa, ele, que se sente já outro, vê agora claramente que aquela proliferação de comida revela apenas um grande vazio. E percebe porque é que a bruxa precisa de atrair as criançinhas, porque é que a menina Ivone come vivo quem lhe entra porta dentro.
Desde que ele chegou, ela ainda não se calou. Conduz as operações domésticas com irrelevantes comentários sobre tudo o que faz. Mas o tagarelar constante não cala o silêncio que ocupa esta casa e que sempre esteve aqui, sim, mas que só agora ele ouve. É um silêncio que passa as paredes, vem de todo o lado e pode instalar-se seja onde for, a qualquer momento, como um bolor.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008
16
- Entra, filho, entra.
Já o cobriu de beijos dizendo, estás tão crescido e agora afasta-se para que ele entre. Ele limpa bem os pés no capacho da entrada. Cheira a bolos.
- Vens com fome?
- Nem por isso...
- ... eu já vou pôr a mesa...
Deixa-se engolir por aquela escuridão estreita, finta os fetos e os armários com a mochila. Desaguam na cozinha, como sempre acontece em casa da menina Ivone.
- Trazes tão pouca bagagem. Afinal quanto tempo ficas?
- Não muito, madrinha.
- Ai filho, estou tão feliz que tenhas vindo, tão feliz...
A menina Ivone limpa uma lágrima de comoção. E ele diz, então, que é isso?
- Não ligues, filho, não ligues... anda lá...
E leva-o de novo pelos corredores escuros até uma porta que range quando ela a abre. É um quarto onde não se lembra de alguma vez ter entrado, o quarto de hóspedes. Pequeno, mais alto que largo. Uma cama, uma cadeira, um armário e é tudo. E sobre a cabeçeira da cama o retrato antigo de um homem. Fato e gravata. Bigode.
Enquanto a menina Ivone lhe explica que tem toalhas e mais cobertores no armário ele olha o retrato.
- Quem é?
- O tio Celestino.
- Avô do Zé?
- Avô do Zé.
Ficam um momento a olhar para o senhor que tem a expressão de quem está a ser fotografado pela primeira vez na vida. Um caso sério.
- Era um homem bonito.
- Era sim.. E foi a desgraça dele, filho. Foi a desgraça dele...
Já o cobriu de beijos dizendo, estás tão crescido e agora afasta-se para que ele entre. Ele limpa bem os pés no capacho da entrada. Cheira a bolos.
- Vens com fome?
- Nem por isso...
- ... eu já vou pôr a mesa...
Deixa-se engolir por aquela escuridão estreita, finta os fetos e os armários com a mochila. Desaguam na cozinha, como sempre acontece em casa da menina Ivone.
- Trazes tão pouca bagagem. Afinal quanto tempo ficas?
- Não muito, madrinha.
- Ai filho, estou tão feliz que tenhas vindo, tão feliz...
A menina Ivone limpa uma lágrima de comoção. E ele diz, então, que é isso?
- Não ligues, filho, não ligues... anda lá...
E leva-o de novo pelos corredores escuros até uma porta que range quando ela a abre. É um quarto onde não se lembra de alguma vez ter entrado, o quarto de hóspedes. Pequeno, mais alto que largo. Uma cama, uma cadeira, um armário e é tudo. E sobre a cabeçeira da cama o retrato antigo de um homem. Fato e gravata. Bigode.
Enquanto a menina Ivone lhe explica que tem toalhas e mais cobertores no armário ele olha o retrato.
- Quem é?
- O tio Celestino.
- Avô do Zé?
- Avô do Zé.
Ficam um momento a olhar para o senhor que tem a expressão de quem está a ser fotografado pela primeira vez na vida. Um caso sério.
- Era um homem bonito.
- Era sim.. E foi a desgraça dele, filho. Foi a desgraça dele...
domingo, 24 de fevereiro de 2008
15
Não saberia dizer o que mudou, mas deve ter sido algo dentro de si. A vila ainda é a mesma. O autocarro passa as bombas da gasolina, o largo da igreja, a escola primária. Novo é o bairro social, o polidesportivo, a rodoviária. Mas é tudo o mesmo. Ele é que é outro. Ele já não mora ali.
A porta pneumática abre-se para deixar sair os passageiros e deixa entrar um cheiro que o perturba por ser tão familiar. Para lá dos travões e do gasóleo há campos. Sol na cal das casas e mais coisas que nem têm nome para dar a um cheiro, mas que ele reconhece. Não são só recordações que se abatem súbitamente sobre ele. É uma solidão imensa.
Põe a mochila às costas. Dali sabe ir ter a casa da menina Ivone, subindo a rua. Lá para baixo é o campo de futebol, vazio a esta hora. Amarelo, laranja quase, o pó. Nunca foi bem terra batida que terra daquela não se deixa bater.
E agora Jaquim? Sobes a rua, olhas em volta, que fazes aqui?
A mochila pesa mas já não é longe. São duas ruas. Desertas quase, não fosse os cães. Olham para ti apenas, deitados à sombra, língua de fora, com perguiça de ladrar. Ali é a loja do Sr. Alcides. E há um clube de vídeo novo. E um café também. E virando a esquina, aqui está o largo, a escola primária, a casa com os azulejos por cima da porta. Santo António. E sabes que se desceres a outra rua vês outra casa, a que foi tua. A vossa casa.
Que desejo palerma este, de voltar para casa quando casa já não se tem.
A porta pneumática abre-se para deixar sair os passageiros e deixa entrar um cheiro que o perturba por ser tão familiar. Para lá dos travões e do gasóleo há campos. Sol na cal das casas e mais coisas que nem têm nome para dar a um cheiro, mas que ele reconhece. Não são só recordações que se abatem súbitamente sobre ele. É uma solidão imensa.
Põe a mochila às costas. Dali sabe ir ter a casa da menina Ivone, subindo a rua. Lá para baixo é o campo de futebol, vazio a esta hora. Amarelo, laranja quase, o pó. Nunca foi bem terra batida que terra daquela não se deixa bater.
E agora Jaquim? Sobes a rua, olhas em volta, que fazes aqui?
A mochila pesa mas já não é longe. São duas ruas. Desertas quase, não fosse os cães. Olham para ti apenas, deitados à sombra, língua de fora, com perguiça de ladrar. Ali é a loja do Sr. Alcides. E há um clube de vídeo novo. E um café também. E virando a esquina, aqui está o largo, a escola primária, a casa com os azulejos por cima da porta. Santo António. E sabes que se desceres a outra rua vês outra casa, a que foi tua. A vossa casa.
Que desejo palerma este, de voltar para casa quando casa já não se tem.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
14
Sim.
O céu sobre Vila Velha.
O sol a derramar-se nas searas.
Uma promessa de liberdade nas férias, os banhos de mangueira no quintal. Água a escorrer nos ladrilhos quentes e os dois a rir, aos gritos, aos pulos, aos berros, a correrem no pátio, cuecas molhadas, tudo molhado. O Verão e a mãe a rir-se com eles.
E debruçados da torre da igreja, a olhar os campos que o Sol come. O Sol atirando-se contra as casas. Aquele branco atordoante do Verão.
É a luz. Recorda-lhe estas coisas. O embalo do autocarro, as árvores que passam, campos da beira da estrada. Isso.
Volta, regressa, sim está a caminho. Mas onde está a sua vida, a que levava nesses dias? O coração leve. Alguma alegria. Dias cheios. O que aconteceu a isso tudo?
Olha pela janela do autocarro. Conheçe este sítio. Ali à frente há-de haver um restaurante com um toldo vermelho. Depois uma casa de dois andares, um quintal com um pinheiro. Sim, esta estrada. Já estão quase. Vila Velha é já ali, quase se vê, ao fundo da curva.
E ele, onde está? Não está aqui neste autocarro, quase a chegar. Sente-se ainda lá para trás, na cidade. O peso de chumbo aos ombros. Sim, provavelmente ainda anda nas ruas cinzentas da capital, no prédio antigo cheirando a gatos, no quarto a que por enquanto chama seu. Joaquim. Quim, sobrinho, querido, filho, para onde vais? Demoras?
Volto logo, tia. Vila Velha. Sim, visitar o Zé. Ver os amigos. Eu volto logo. Não demoro. Apanho o autocarro. Atravesso campos, montes, planícies... olha que verdes... ainda é Maio. Regresso, sim. Ficou lá alguma coisa. Deixei lá...
... deixámos o quê, mãe? O que fomos. Quem éramos então... Sim, mãe eu quero saber. Porque é que nunca disseste nada? Eu queria saber, sim. Porque se matou o pai?
O céu sobre Vila Velha.
O sol a derramar-se nas searas.
Uma promessa de liberdade nas férias, os banhos de mangueira no quintal. Água a escorrer nos ladrilhos quentes e os dois a rir, aos gritos, aos pulos, aos berros, a correrem no pátio, cuecas molhadas, tudo molhado. O Verão e a mãe a rir-se com eles.
E debruçados da torre da igreja, a olhar os campos que o Sol come. O Sol atirando-se contra as casas. Aquele branco atordoante do Verão.
É a luz. Recorda-lhe estas coisas. O embalo do autocarro, as árvores que passam, campos da beira da estrada. Isso.
Volta, regressa, sim está a caminho. Mas onde está a sua vida, a que levava nesses dias? O coração leve. Alguma alegria. Dias cheios. O que aconteceu a isso tudo?
Olha pela janela do autocarro. Conheçe este sítio. Ali à frente há-de haver um restaurante com um toldo vermelho. Depois uma casa de dois andares, um quintal com um pinheiro. Sim, esta estrada. Já estão quase. Vila Velha é já ali, quase se vê, ao fundo da curva.
E ele, onde está? Não está aqui neste autocarro, quase a chegar. Sente-se ainda lá para trás, na cidade. O peso de chumbo aos ombros. Sim, provavelmente ainda anda nas ruas cinzentas da capital, no prédio antigo cheirando a gatos, no quarto a que por enquanto chama seu. Joaquim. Quim, sobrinho, querido, filho, para onde vais? Demoras?
Volto logo, tia. Vila Velha. Sim, visitar o Zé. Ver os amigos. Eu volto logo. Não demoro. Apanho o autocarro. Atravesso campos, montes, planícies... olha que verdes... ainda é Maio. Regresso, sim. Ficou lá alguma coisa. Deixei lá...
... deixámos o quê, mãe? O que fomos. Quem éramos então... Sim, mãe eu quero saber. Porque é que nunca disseste nada? Eu queria saber, sim. Porque se matou o pai?
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
13
Ainda assim, estes dias são os melhores, quando a casa finalmente se encharca em silêncio. Nestes dias deixa-se por vezes parar, a meio de passar umas calças, dobrar umas peúgas. Dá por si a olhar para a Virgem, que, de cima da televisão, mede a humidade com o seu manto de cor mutante.
Não é que o ventre lhe doa. Hoje em dia já nem sente nada, mas é como se tivesse um vazio, ali em baixo. Mais vazio ainda que no coração. No coração ainda guarda ela alguma coisa. E ao fundo do quintal, há a àrvore que lhe guarda segredos. O seu coração é tal e qual a árvore, cala-se e guarda tudo. Faz por ignorar o que tem enterrado entre as raízes. Não há nada a dizer.
Ela também nunca fora de muitas falas. Até na confissão, sempre poupara palavras. Só o Padre Alberto lhe soltara a iálma, fazendo perguntas como quem cava por àgua em terra seca.
…isso porque lhe vira as lágrimas…
E, tentando secá-las, causara mais…
Com as meias dobradas no colo, fica sentada. Idália de Jesus Calminho, sózinha em casa.
Bendito silêncio.
Para além da Virgem, há também um quadro. Jesus com o coração sangrando, cravejado de espinhos. E mesmo assim, a face impassível, de quem sabe que a dor não importa.
É por saber que Jesus lhe vê também o coração, que Idália se poupa ao trabalho de se queixar. Está casada, tem um filho e uma casa. Comida na mesa. Asseio no lar. Se tiver em conta que há quem não tenha onde dormir, quem não tenha o que comer, então está ela muito bem. Que queixas pode ela fazer à vida?
(…tantas…)
Em cima da mesa há uma revista dessas para mulheres. Há muito tempo que ela lê revistas destas. O suficiente para saber que há fulanas, até princesas que, se numa semana encontram o amor da sua vida, na outra está ele perdido. Já ela, tem constância na vida. Tem pratos para lavar e jantar para fazer.
E é assim.
Não é que o ventre lhe doa. Hoje em dia já nem sente nada, mas é como se tivesse um vazio, ali em baixo. Mais vazio ainda que no coração. No coração ainda guarda ela alguma coisa. E ao fundo do quintal, há a àrvore que lhe guarda segredos. O seu coração é tal e qual a árvore, cala-se e guarda tudo. Faz por ignorar o que tem enterrado entre as raízes. Não há nada a dizer.
Ela também nunca fora de muitas falas. Até na confissão, sempre poupara palavras. Só o Padre Alberto lhe soltara a iálma, fazendo perguntas como quem cava por àgua em terra seca.
…isso porque lhe vira as lágrimas…
E, tentando secá-las, causara mais…
Com as meias dobradas no colo, fica sentada. Idália de Jesus Calminho, sózinha em casa.
Bendito silêncio.
Para além da Virgem, há também um quadro. Jesus com o coração sangrando, cravejado de espinhos. E mesmo assim, a face impassível, de quem sabe que a dor não importa.
É por saber que Jesus lhe vê também o coração, que Idália se poupa ao trabalho de se queixar. Está casada, tem um filho e uma casa. Comida na mesa. Asseio no lar. Se tiver em conta que há quem não tenha onde dormir, quem não tenha o que comer, então está ela muito bem. Que queixas pode ela fazer à vida?
(…tantas…)
Em cima da mesa há uma revista dessas para mulheres. Há muito tempo que ela lê revistas destas. O suficiente para saber que há fulanas, até princesas que, se numa semana encontram o amor da sua vida, na outra está ele perdido. Já ela, tem constância na vida. Tem pratos para lavar e jantar para fazer.
E é assim.
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
12
Ela olha para os pratos. Estão ali desde essa manhã, aguardando em silêncio, implacáveis.
É a vida, diria normalmente num suspiro, mas em dias destes antes pensa, isto não é vida.
Domingo e a casa vazia, sem eles, sem cão. Só uma abençoada solidão. Opressiva, ainda assim. Há roupa para lavar e estender, pó para limpar, casa para varrer. E tudo isso é feito, o dia é posto a render.
Não é que ela se importe com o trabalho, o trabalho descobre-o ela em todo o lado, há sempre ordem para pôr numa casa, no mundo. A mãe soubera ensinar-lhe os deveres da mulher. Nisso fora ela boa. Só tarde demais lhe dissera alguma coisa sobre rapazes. Essa conversa viera atrapalhada e aos solavancos, ela já de véu e grinalda e, inevitavelmente, prenha. Mais que pronta para se levantar da estreita cama de solteira e subir a larga escadaria da igreja.
Mas isso não fora culpa da mãe. A culpa fora do ócio, que é invenção do Diabo. Tivesse ela ocupado as tardes livres do liceu a esfregar chão e não teria caído nas cantigas do Manel, nas palavras meladas que ele lhe sussurrara ao ouvido, na praça do jardim, e que lhe tinham aberto o coração. Tinham sido só meio caminho para lhe abrir as pernas. Depois, quando as fechara, estava o mal feito e não levara muito mais tempo até que se lhe fechasse o coração também.
Casava com um traste, sabia-o. Mas era um traste dono de um establecimento comercial, bem parecido e que a emprenhara. Com a mesma convicção com que pegava num balde e numa esfregona, dissera-lhe, ou te casas comigo ou nunca mais fodes ninguém. Fora a única vez que lhe tinha saído uma palavra destas da boca. E ele lá aparecera na igreja.
Depois viera a menina Ivone meter-se na sua vida, ainda antes da desgraça, como sempre fazia com a de toda a gente, a falar-lhe de amor…
Amor também fora uma palavra que lhe andara arredada dos lábios. Amor era coisa de canções, sabia ela, tal como sabia que um chão só brilha se se lhe puxar brilho. Um casamento era a mesma coisa. Casamento era ordem, amor era desordem. Entre os dois ela sabia o que escolher. O Manel era um bicho selvagem que ela havia de domar, da mesma maneira que se ensina um cão a mijar no quintal e não no tapete da sala.
… é claro que isto fora o que ela pensara durante alguns inocentes meses. Depois a vida logo providenciara razões para que mudasse de idéias. Mas, a vida… é a vida, e aqueles pratos no lava-loiça são a prova de que na vida as coisas só mudam para ficarem na mesma. Lava-os. Se há trabalho para fazer, faz-se. Que mais se há-de fazer?
É a vida, diria normalmente num suspiro, mas em dias destes antes pensa, isto não é vida.
Domingo e a casa vazia, sem eles, sem cão. Só uma abençoada solidão. Opressiva, ainda assim. Há roupa para lavar e estender, pó para limpar, casa para varrer. E tudo isso é feito, o dia é posto a render.
Não é que ela se importe com o trabalho, o trabalho descobre-o ela em todo o lado, há sempre ordem para pôr numa casa, no mundo. A mãe soubera ensinar-lhe os deveres da mulher. Nisso fora ela boa. Só tarde demais lhe dissera alguma coisa sobre rapazes. Essa conversa viera atrapalhada e aos solavancos, ela já de véu e grinalda e, inevitavelmente, prenha. Mais que pronta para se levantar da estreita cama de solteira e subir a larga escadaria da igreja.
Mas isso não fora culpa da mãe. A culpa fora do ócio, que é invenção do Diabo. Tivesse ela ocupado as tardes livres do liceu a esfregar chão e não teria caído nas cantigas do Manel, nas palavras meladas que ele lhe sussurrara ao ouvido, na praça do jardim, e que lhe tinham aberto o coração. Tinham sido só meio caminho para lhe abrir as pernas. Depois, quando as fechara, estava o mal feito e não levara muito mais tempo até que se lhe fechasse o coração também.
Casava com um traste, sabia-o. Mas era um traste dono de um establecimento comercial, bem parecido e que a emprenhara. Com a mesma convicção com que pegava num balde e numa esfregona, dissera-lhe, ou te casas comigo ou nunca mais fodes ninguém. Fora a única vez que lhe tinha saído uma palavra destas da boca. E ele lá aparecera na igreja.
Depois viera a menina Ivone meter-se na sua vida, ainda antes da desgraça, como sempre fazia com a de toda a gente, a falar-lhe de amor…
Amor também fora uma palavra que lhe andara arredada dos lábios. Amor era coisa de canções, sabia ela, tal como sabia que um chão só brilha se se lhe puxar brilho. Um casamento era a mesma coisa. Casamento era ordem, amor era desordem. Entre os dois ela sabia o que escolher. O Manel era um bicho selvagem que ela havia de domar, da mesma maneira que se ensina um cão a mijar no quintal e não no tapete da sala.
… é claro que isto fora o que ela pensara durante alguns inocentes meses. Depois a vida logo providenciara razões para que mudasse de idéias. Mas, a vida… é a vida, e aqueles pratos no lava-loiça são a prova de que na vida as coisas só mudam para ficarem na mesma. Lava-os. Se há trabalho para fazer, faz-se. Que mais se há-de fazer?
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
11
É já o Sol que se põe. A luz de ouro que entra pela cozinha. Cortinas de renda.
Agora é hora de ir para casa.
Vai, filho, que a tua mãe já deve estar em cuidados.
Em cuidados está ela sempre.
Despede-se da madrinha, relutante. Ela, enquanto o beija na face, faz deslizar para a sua mão uma nota dobradinha.
Toma lá filho, pelas perdizes.
E ele apressa-se a sair antes que ela o veja corar de vergonha.
Quando estaciona em frente a casa nota que o pai ainda não voltou. A outra carrinha ainda não está no sítio do costume. Tanto melhor. As janelas estão às escuras. A mãe está decerto lá para dentro, para a cozinha. Abre a porta e é saudado pelo som familiar da panela de pressão. O cheiro é o de sempre, a carne e batatas. Está em casa.
Chegas tarde, diz a mãe.
O Pai?
Também ainda não chegou.
Quando é que chega?
Sei lá. Já sabes como ele é.
Posso ir para o quarto?
Vai-te mas é lavar. E leva daqui o cão.
O cão já vai a caminho do quintal, que é onde mora, mas apanha ainda umas festas antes de ir. Zé Manel, esse, vai sem mimos para o quarto. Aqui o silêncio é melhor, aqui sim, está em casa.
Despe-se e vai para o duche. Sabe-lhe bem a àgua a escorrer pelo corpo, a limpar-lhe o dia, mais um, a sair-lhe da pele. Aqui não se ouve a panela de pressão e quase desaparece o cheio a carne e a couve, se usar muito sabão, muito champô. Aqui é um mundo de chuva, de água e corpo. Líquido, como a barragem. Escuro, se fechar os olhos, como a noite.
E reduz a água quente, até sentir o frio igual ao da noite em que se lançou à barragem, a nadar.
O frio da água e o mais quente abraço.
Braços.
Abraço.
Amigo.
Agora é hora de ir para casa.
Vai, filho, que a tua mãe já deve estar em cuidados.
Em cuidados está ela sempre.
Despede-se da madrinha, relutante. Ela, enquanto o beija na face, faz deslizar para a sua mão uma nota dobradinha.
Toma lá filho, pelas perdizes.
E ele apressa-se a sair antes que ela o veja corar de vergonha.
Quando estaciona em frente a casa nota que o pai ainda não voltou. A outra carrinha ainda não está no sítio do costume. Tanto melhor. As janelas estão às escuras. A mãe está decerto lá para dentro, para a cozinha. Abre a porta e é saudado pelo som familiar da panela de pressão. O cheiro é o de sempre, a carne e batatas. Está em casa.
Chegas tarde, diz a mãe.
O Pai?
Também ainda não chegou.
Quando é que chega?
Sei lá. Já sabes como ele é.
Posso ir para o quarto?
Vai-te mas é lavar. E leva daqui o cão.
O cão já vai a caminho do quintal, que é onde mora, mas apanha ainda umas festas antes de ir. Zé Manel, esse, vai sem mimos para o quarto. Aqui o silêncio é melhor, aqui sim, está em casa.
Despe-se e vai para o duche. Sabe-lhe bem a àgua a escorrer pelo corpo, a limpar-lhe o dia, mais um, a sair-lhe da pele. Aqui não se ouve a panela de pressão e quase desaparece o cheio a carne e a couve, se usar muito sabão, muito champô. Aqui é um mundo de chuva, de água e corpo. Líquido, como a barragem. Escuro, se fechar os olhos, como a noite.
E reduz a água quente, até sentir o frio igual ao da noite em que se lançou à barragem, a nadar.
O frio da água e o mais quente abraço.
Braços.
Abraço.
Amigo.
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