terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

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Começaram por ser parceiros ao berlinde e depois de ganharem a todos da turma e até aos mais velhos da terceira classe, Zé Manel mudou-se para a mesma carteira que o Jaquim. A primeira da fila, mesmo em frente à professora, mas ele sem medo, que tinha o amigo ali ao lado.
Custou-lhe caro. Teve de convencer a Maria da Conceição a ir lá para trás. Na verdade subornara-a com três cromos que tinha repetidos e a borracha em forma de borboleta que vinha no estojo de lápis que a madrinha lhe oferecera e que ele achava dispensável porque borboletas eram para meninas. Ela queria também o afia vermelho, mas ele explicou-lhe que isso não podia dar porque ele era do Benfica. Se quisesse podia dar-lhe antes o lápis verde. Mas ela também tinha lápis de côr, por isso não valia a pena.
E fora assim.
Os raspanetes da Dona Luísa exigindo silêncio e sossego nas aulas tinham começado logo nesse dia. O Jaquim estava dividido entre o prazer de um novo amigo e o respeito pela solene profissão da mãe. Mas havia tanto que contar um ao outro e os planos para o recreio, para ganhar o abafador do Mamede, para ver quem cuspia mais longe, para sabotar os jogos das miúdas…
A Dona Luísa só sorria quando virava as costas à classe para escrever no quadro. A ordem tinha de ser mantida na aula. Zé Manel nunca a vira a rir na escola. Pelo menos não com aquelas gargalhadas que mais nenhum adulto dava quando ele contava anedotas. Aquele riso que ele nunca mais ia ouvir.
O cancro é uma coisa terrível, dissera a madrinha. Roeu-a por dentro, filho, roeu-a por dentro. Pobre Jaquim.
No ano em que a Dona Luísa adoecera, ele ajoelhara-se à beira da cama e pela primeira vez na vida rezara convicto. Pedira a Deus que trocasse, que levasse antes o pai dele e deixasse a mãe ao Jaquim. O Jaquim precisava dela, ele não precisava do pai. E além disso, assim ficariam os dois sem pai. Seriam mais iguais.

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