Um arco-íris. A luz partindo-se em bocadinhos, sete cores que parecem milhões. É isso que está dentro do cisne. Pequenino. Cabe-lhe na mão.
Quase nada para uma vergonha tão grande.
Depois de ter aberto todos os caixotes, depois de encontrar nada, olhou para tudo o que salvou do mofo e a única coisa capaz de trazer de volta o passado é aquele cisne.
Depois de o tirar da caixa, depois de o olhar de frente, de lado, de cima, de baixo, atira-o ao chão.
O bicho resiste. Em vez de se partir, saltita no chão cimentado e um dos gatos, o mais novo, corre a ver o que é aquilo.
Jaquim decide-se. Pega numa pedra e, com inesperada força, parte o cisne, esmigalha-o, desfá-lo em fanicos, até só ficarem estilhaços, milhares de corzinhas reflectidas em milhões de pedacinhos de cristal.
Tinha de ser. Aquele arco-íris dentro do cisne era uma dor. Uma perfeição cristalina contendo o que de mais escuro há dentro do Zé.
Ele sabe. Ele coneçe o Zé. Se aquele cisne voltasse a aparecer nunca mais seriam amigos, tal é a vergonha.
É por o Jaquim conhecer todas as falhas do Zé que sente o dever cumprido olhando para os destroços de cristal. Uma certeza ilumina-o. Como é que nunca viu isto com tanta clareza?
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
sábado, 15 de novembro de 2008
43
Ele olha para os caixotes.
Estão ali numa aparente resignação, de quem sabe que não tem mais para ganhar na vida senão bolor. Jaquim sente-se derrotado logo à partida, só de olhar para eles.
Então é isto, tudo o que resta. Uma dúzia de caixotes, deixados para trás numa correria.
A mãe pensara que haveria tempo para voltar atrás, para os vir buscar. Cinco anos e nunca houvera tempo.
Jaquim puxa com o pé uma pedra para manter aberta a porta da arrecadação. Monta o banquinho do lado de fora. Em cima põe-lhe a tesoura, a fita-cola e os sacos plásticos. Os gatos, atraídos pelo barulhinho crocante dos sacos vêm cheira-los, não vá dar-se o caso de haver ali comida.
A madrinha deixou-o bem equipado. Ainda ele mal limpara as ramelas dos olhos e já ela o estava a chamar para comer. Tinha já uma sandes pronta num pires (manteiga, fiambre e queijo) e ao lado o leite com o ColaCao (ela ainda o conhece). À ponta da mesa estava aquele equipamento todo (tesoura e sacos e éteceteras), e ela estava vestida, pronta a sair.
- Vá, fica à vontade, filho, que eu tenho uns mandados.
E antes de arrefecer o leite, já ela tinha batido a porta e ido à vida.
Agora aqui está ele, com os caixotes.
O primeiro que puxa, com esforço, pesado como o raio, diz: COZINHA. Corta-lhe a fita-cola, abre-o, e não tarda a fechá-lo. Um dia pode ser que aquelas panelas lhe sirvam para alguma coisa. Quem sabe? Se alugar uma casa, se arranjar um emprego, se acreditar nesses planos todos...
O segundo diz: LIVROS. Este leva mais tempo a voltar a fechar. É que os livros chamam e pedem para ser abertos. Põe alguns de lado, dentro de um dos sacos plásticos (tão previdente, a madrinha) e volta a selar a tampa.
O terceiro diz: COISAS. E ele, sorrindo com a capacidade sintética da mãe, despacha a curiosidade com um rasgão decidido, mas detém-se subitamente quando abre as abas da caixa. O sorriso morre imediatamente. Aqui está o perigo, aquilo que ele se devia ter lembrado: que dentro de caixas de “coisas” há sempre coisas esquecidas capazes de nos fazer lembrar de outras coisas que seria melhor esquecer. Logo ao de cima, ainda dentro da transparente embalagem original, está o cisne. O estúpido cisne de cristal.
Estão ali numa aparente resignação, de quem sabe que não tem mais para ganhar na vida senão bolor. Jaquim sente-se derrotado logo à partida, só de olhar para eles.
Então é isto, tudo o que resta. Uma dúzia de caixotes, deixados para trás numa correria.
A mãe pensara que haveria tempo para voltar atrás, para os vir buscar. Cinco anos e nunca houvera tempo.
Jaquim puxa com o pé uma pedra para manter aberta a porta da arrecadação. Monta o banquinho do lado de fora. Em cima põe-lhe a tesoura, a fita-cola e os sacos plásticos. Os gatos, atraídos pelo barulhinho crocante dos sacos vêm cheira-los, não vá dar-se o caso de haver ali comida.
A madrinha deixou-o bem equipado. Ainda ele mal limpara as ramelas dos olhos e já ela o estava a chamar para comer. Tinha já uma sandes pronta num pires (manteiga, fiambre e queijo) e ao lado o leite com o ColaCao (ela ainda o conhece). À ponta da mesa estava aquele equipamento todo (tesoura e sacos e éteceteras), e ela estava vestida, pronta a sair.
- Vá, fica à vontade, filho, que eu tenho uns mandados.
E antes de arrefecer o leite, já ela tinha batido a porta e ido à vida.
Agora aqui está ele, com os caixotes.
O primeiro que puxa, com esforço, pesado como o raio, diz: COZINHA. Corta-lhe a fita-cola, abre-o, e não tarda a fechá-lo. Um dia pode ser que aquelas panelas lhe sirvam para alguma coisa. Quem sabe? Se alugar uma casa, se arranjar um emprego, se acreditar nesses planos todos...
O segundo diz: LIVROS. Este leva mais tempo a voltar a fechar. É que os livros chamam e pedem para ser abertos. Põe alguns de lado, dentro de um dos sacos plásticos (tão previdente, a madrinha) e volta a selar a tampa.
O terceiro diz: COISAS. E ele, sorrindo com a capacidade sintética da mãe, despacha a curiosidade com um rasgão decidido, mas detém-se subitamente quando abre as abas da caixa. O sorriso morre imediatamente. Aqui está o perigo, aquilo que ele se devia ter lembrado: que dentro de caixas de “coisas” há sempre coisas esquecidas capazes de nos fazer lembrar de outras coisas que seria melhor esquecer. Logo ao de cima, ainda dentro da transparente embalagem original, está o cisne. O estúpido cisne de cristal.
domingo, 21 de setembro de 2008
42
No seu sonho, Susana é loura. Pouco provável, que a família, de ambos os lados, tem raízes árabes e judaicas. Mas no sonho Susana é um anjo, e os anjos são louros, pois então.
Susana voa sobre a vila. Através dos seus olhos, Idália ergue-se do quintal e paira por cima do telhado. Fica ali um pouco, com pena de deixar a terra, mas o cheiro a carne guizada que vem da chaminé força-a a seguir em frente e em breve o seu olhar abrange a vila toda. Vila Velha. De telhas gastas, tão escura como o resto da planície.
O Alentejo é grande, muito grande, percebe agora. É tão extenso que mal se lhe vê o fim. Estica-se em negros campos sussurantes de espigas cansadas de serem espancadas pelo sol, e que à noite se submetem à mínima aragem.
Mas, prestando atenção, lá para o fundo, avista-se Espanha. É só um brilhozinho, como uma aldeola, mas ela sabe que é mais que isso. É um país inteiro, cheio de gente alegre e com Princesas e Reis. Mesmo daqui de longe, ouvem-se as palmas, gente a gritar olé e os tacões da princesa Letícia, que dança uma sevilhana. São muito mais alegres, os espanhóis. É para ali que Susana tem de ir. É isso que Idália diz a Susana, mesmo sem palavras. Porque Idália está dentro de Susana e basta pensar uma coisa para Susana perceber. E nem tem de dizer que está na hora de se separarem: Nem é preciso, entendem-se bem. Não é preciso um adeus.
Vai lá, filha, suspira Idália.
Há um momento em que tem medo, quando vê Susana pelo lado de fora e se apercebe que ela é só uma cabecinha com asas, esvoaçando irrequieta como um pardal. Frágil demais para voar o caminho todo até Espanha. Mas Susana sorri confiante e além disso há aquele cabelo louro, tão bonito que só pode ser uma benção de Deus. É isso que lhe arranca do peito o suspiro e o “Vai lá, filha.”
Infelizmente, nesta parte do sonho, Idália acorda. Irrita-se um bocadinho com o Senhor Manel que ressona lá do outro lado da cama, mas depois vê pelas frinchas das persianas que já é dia e lembra-se que tem umas cuecas no balde da lixívia que é preciso enxaguar. Levanta-se, lava-se, veste-se e sente que está quase alegre quando vai ao quintal buscar o balde.
Lá ao fundo, ao pé da cerca está a árvore, uma azinheira. Normalmente, quanto olha para ela, sente sempre uma inquietação. Houve uma altura em que pensava muito se as raízes da árvore podiam entrar na caixa, no caixãozinho. Como se a árvore pudesse comer Susana. Mas hoje sente que ela já não está ali. Susana já foi para Espanha há muito tempo, mesmo se o sonho só aconteceu esta noite.
Idália olha para a árvore como se a visse pela primeira vez. Agora pode olhar para ela, descansada. É uma árvore muito bonita, alta e frondosa. Uma pessoa até se podia sentar lá debaixo, a ouvir a rádio ou a cozer meias. Mas cheira um bocadinho mal. É pena. O cão vai sempre para ali mijar.
Susana voa sobre a vila. Através dos seus olhos, Idália ergue-se do quintal e paira por cima do telhado. Fica ali um pouco, com pena de deixar a terra, mas o cheiro a carne guizada que vem da chaminé força-a a seguir em frente e em breve o seu olhar abrange a vila toda. Vila Velha. De telhas gastas, tão escura como o resto da planície.
O Alentejo é grande, muito grande, percebe agora. É tão extenso que mal se lhe vê o fim. Estica-se em negros campos sussurantes de espigas cansadas de serem espancadas pelo sol, e que à noite se submetem à mínima aragem.
Mas, prestando atenção, lá para o fundo, avista-se Espanha. É só um brilhozinho, como uma aldeola, mas ela sabe que é mais que isso. É um país inteiro, cheio de gente alegre e com Princesas e Reis. Mesmo daqui de longe, ouvem-se as palmas, gente a gritar olé e os tacões da princesa Letícia, que dança uma sevilhana. São muito mais alegres, os espanhóis. É para ali que Susana tem de ir. É isso que Idália diz a Susana, mesmo sem palavras. Porque Idália está dentro de Susana e basta pensar uma coisa para Susana perceber. E nem tem de dizer que está na hora de se separarem: Nem é preciso, entendem-se bem. Não é preciso um adeus.
Vai lá, filha, suspira Idália.
Há um momento em que tem medo, quando vê Susana pelo lado de fora e se apercebe que ela é só uma cabecinha com asas, esvoaçando irrequieta como um pardal. Frágil demais para voar o caminho todo até Espanha. Mas Susana sorri confiante e além disso há aquele cabelo louro, tão bonito que só pode ser uma benção de Deus. É isso que lhe arranca do peito o suspiro e o “Vai lá, filha.”
Infelizmente, nesta parte do sonho, Idália acorda. Irrita-se um bocadinho com o Senhor Manel que ressona lá do outro lado da cama, mas depois vê pelas frinchas das persianas que já é dia e lembra-se que tem umas cuecas no balde da lixívia que é preciso enxaguar. Levanta-se, lava-se, veste-se e sente que está quase alegre quando vai ao quintal buscar o balde.
Lá ao fundo, ao pé da cerca está a árvore, uma azinheira. Normalmente, quanto olha para ela, sente sempre uma inquietação. Houve uma altura em que pensava muito se as raízes da árvore podiam entrar na caixa, no caixãozinho. Como se a árvore pudesse comer Susana. Mas hoje sente que ela já não está ali. Susana já foi para Espanha há muito tempo, mesmo se o sonho só aconteceu esta noite.
Idália olha para a árvore como se a visse pela primeira vez. Agora pode olhar para ela, descansada. É uma árvore muito bonita, alta e frondosa. Uma pessoa até se podia sentar lá debaixo, a ouvir a rádio ou a cozer meias. Mas cheira um bocadinho mal. É pena. O cão vai sempre para ali mijar.
domingo, 15 de junho de 2008
41
Lençóis lavados.
Alvos. Quebradiços quase. Passados a ferro e esticados num excesso de zelo a significar carinho ou amor. É quase inumano dormir numa cama destas, o colchão duro como o chão, nunca moldado por um corpo. Tem poucas visitas, a menina Ivone, mesmo que tenha um quarto para elas. Ou poucas visitas que fiquem a passar a noite.
Custam a passar, as noites.
As noites do Jaquim.
As noites da menina Ivone.
No quarto do retrato do avô Celestino, o Jaquim despe-se à pressa. Há um frio acumulado nas paredes. Passou para os lençóis, nota ele assim que sobe para a cama. Arrepende-se de não ter trazido um pijama. Mas depois lembra-se que já não tem pijamas. Cresceu demais para os que tinha e, claro, desde que passou a ser ele a comprar a sua própria roupa, esquece-se de comprar pijamas. Já cuecas e peúgas, sabe deus.
Leva um pé ao nariz para averiguar o estado deste par que tem calçado. Menos mal. Ainda pode dar para amanhã. Não trouxe muitas.
De certeza que a madrilha lhas lavava se lhe pedisse, mas não quer dar trabalho. O Jaquim não é de dar trabalho a ninguém. Em casa da tia aprendeu bem isso. A apagar-se. É o mínimo que se pode fazer quando se mora com alguém por favor.
Enfia-se na cama. Os lençóis estão gelados, o cobertor pesa uma tonelada e de certeza que vai levar umas horas a aquecer. Deixa-se ficar imóvel, evitando tocar nas partes frias da cama.
O sono virá quando vier. Há muitas coisas em que quer pensar e outras em que não quer pensar, antes de dormir, mas há uma sempre presente. A noção de que tem de começar a viver.
Diz-lhe a razão de que isso tem de começar pelo emprego, pelo dinheiro. É que nos últimos anos tem sido esta a sua vida. Uma cama fria que não lhe pertence.
Alvos. Quebradiços quase. Passados a ferro e esticados num excesso de zelo a significar carinho ou amor. É quase inumano dormir numa cama destas, o colchão duro como o chão, nunca moldado por um corpo. Tem poucas visitas, a menina Ivone, mesmo que tenha um quarto para elas. Ou poucas visitas que fiquem a passar a noite.
Custam a passar, as noites.
As noites do Jaquim.
As noites da menina Ivone.
No quarto do retrato do avô Celestino, o Jaquim despe-se à pressa. Há um frio acumulado nas paredes. Passou para os lençóis, nota ele assim que sobe para a cama. Arrepende-se de não ter trazido um pijama. Mas depois lembra-se que já não tem pijamas. Cresceu demais para os que tinha e, claro, desde que passou a ser ele a comprar a sua própria roupa, esquece-se de comprar pijamas. Já cuecas e peúgas, sabe deus.
Leva um pé ao nariz para averiguar o estado deste par que tem calçado. Menos mal. Ainda pode dar para amanhã. Não trouxe muitas.
De certeza que a madrilha lhas lavava se lhe pedisse, mas não quer dar trabalho. O Jaquim não é de dar trabalho a ninguém. Em casa da tia aprendeu bem isso. A apagar-se. É o mínimo que se pode fazer quando se mora com alguém por favor.
Enfia-se na cama. Os lençóis estão gelados, o cobertor pesa uma tonelada e de certeza que vai levar umas horas a aquecer. Deixa-se ficar imóvel, evitando tocar nas partes frias da cama.
O sono virá quando vier. Há muitas coisas em que quer pensar e outras em que não quer pensar, antes de dormir, mas há uma sempre presente. A noção de que tem de começar a viver.
Diz-lhe a razão de que isso tem de começar pelo emprego, pelo dinheiro. É que nos últimos anos tem sido esta a sua vida. Uma cama fria que não lhe pertence.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
40
Basta que a noite caia para que Vila Velha se cubra de silêncio. Claro que em frente ao café, até à meia-noite há sempre um par de bêbados. E há a mota ocasional, acelerando a qualquer hora da noite, de escape rasgado. Mas de resto, fecha-se o mundo em casa. Até as portadas, os estores das janelas se fecham, mal deixando transpirar o brilho dos concursos, noticiários e novelas dos televisores. Ficam as ruas abandonadas ao tremor das lâmpadas fracas que a junta de freguesia espalhou, esparsas, pelas esquinas.
Ele tem um sítio. Só seu, que não é do tempo do Jaquim, mas recente. É por baixo do depósito da água. Aquilo antes tinha um muro, mas parte foi abaixo e agora entra-se na boa. É quase um baldio, mas há uns degraus de cimento e ele senta-se ali encostado ao pilar.
Afinal não disseram grande coisa. Mas foi um bom dia. Melhor que o normal, pelo menos. Com o Jaquim ele é mais ele. Mais Zé, menos Zé do talho.
Foi pena afinal o Jaquim não querer ir ter com o pessoal ao café. Cansaço, disse. Fica para amanhã.
Na boa.
Este sítio. Daqui vê-se até muito longe, é o sítio mais alto.
Em noites destas o céu está cheio de estrelas e a terra também.
O que é que o Zé ou o Zé do talho ou o Zézinho importam aqui? Aqui é só ele e o cão.
- Anda cá, bicho. Larga essa merda!
E ele vem. Senta-se aos seus pés a arfar e a olhar em redor. Deixa-se afagar. Coçar na nuca. E claro, os dedos logo param o coçanço quando encontram uma carraça.
Ó, bicho dum raio!
O Zé saca dos cigarros e acende um, puxa umas passas.
E olha as estrelas derramadas por todo o lado. A planície negra com as suas luminosas carraças humanas. Algumas das terreolas ele sabe quais são. Sabe o seu nome. Já as estrelas brilham para ele anónimas. Nunca aprendeu constelações nem sabe onde fica Órion. Talvez por isso prefira as estrelas do céu às da terra.
O cão está quieto. Expectante. Sabe o que se segue. O horror da coisa. Mas sabe que ao cheiro feio e à pontada de dor se segue o alívio.
Vale a pena esperar o alívio.
E afinal até é rápido. O Zé já fez aquilo tanta vez. Abre-lhe o pêlo até encontrar a puta. E depois, zás, dá-lhe com o cigarro e ela cai, fica esperneando no chão. Nunca muito tempo, porque vem logo o sapato do Zé.
O Zé espanta-se sempre com a quantidade de sangue que as putas têm.
Puxa mais uma passa, mas o cigarro acaba por ter o mesmo destino da carraça.
Agora sim, há paz no mundo.
Espera e tudo se acalma. Ele, o cão, a noite.
Enche os pulmões de solidão e estrelas sem nome.
Adia o regresso a casa o mais que pode.
Não é nunca na cama que encontra sossego.
Ele tem um sítio. Só seu, que não é do tempo do Jaquim, mas recente. É por baixo do depósito da água. Aquilo antes tinha um muro, mas parte foi abaixo e agora entra-se na boa. É quase um baldio, mas há uns degraus de cimento e ele senta-se ali encostado ao pilar.
Afinal não disseram grande coisa. Mas foi um bom dia. Melhor que o normal, pelo menos. Com o Jaquim ele é mais ele. Mais Zé, menos Zé do talho.
Foi pena afinal o Jaquim não querer ir ter com o pessoal ao café. Cansaço, disse. Fica para amanhã.
Na boa.
Este sítio. Daqui vê-se até muito longe, é o sítio mais alto.
Em noites destas o céu está cheio de estrelas e a terra também.
O que é que o Zé ou o Zé do talho ou o Zézinho importam aqui? Aqui é só ele e o cão.
- Anda cá, bicho. Larga essa merda!
E ele vem. Senta-se aos seus pés a arfar e a olhar em redor. Deixa-se afagar. Coçar na nuca. E claro, os dedos logo param o coçanço quando encontram uma carraça.
Ó, bicho dum raio!
O Zé saca dos cigarros e acende um, puxa umas passas.
E olha as estrelas derramadas por todo o lado. A planície negra com as suas luminosas carraças humanas. Algumas das terreolas ele sabe quais são. Sabe o seu nome. Já as estrelas brilham para ele anónimas. Nunca aprendeu constelações nem sabe onde fica Órion. Talvez por isso prefira as estrelas do céu às da terra.
O cão está quieto. Expectante. Sabe o que se segue. O horror da coisa. Mas sabe que ao cheiro feio e à pontada de dor se segue o alívio.
Vale a pena esperar o alívio.
E afinal até é rápido. O Zé já fez aquilo tanta vez. Abre-lhe o pêlo até encontrar a puta. E depois, zás, dá-lhe com o cigarro e ela cai, fica esperneando no chão. Nunca muito tempo, porque vem logo o sapato do Zé.
O Zé espanta-se sempre com a quantidade de sangue que as putas têm.
Puxa mais uma passa, mas o cigarro acaba por ter o mesmo destino da carraça.
Agora sim, há paz no mundo.
Espera e tudo se acalma. Ele, o cão, a noite.
Enche os pulmões de solidão e estrelas sem nome.
Adia o regresso a casa o mais que pode.
Não é nunca na cama que encontra sossego.
domingo, 8 de junho de 2008
39
- Madrinha?
- Sim?
- Porque é minha madrinha?
Depois de o Zé se ir, quando já voltaram à cozinha e já é altura para um copo de leite quente. Antes de dormir. Agora, pensa ela. Afinal mais cedo que tarde.
Procura o passador para lhe coar a pele do leite e vai respondendo, como se nada fosse.
- Foi a tua mãe que me convidou, filho.
- Mas porquê a si?
- Não sei. Se calhar porque ela não conhecia muita gente cá na altura.
- Ela não estava naquelas fotografias.
O Jaquim não diz a que fotografias se refere mas ela percebe que são as do baptizado do Zé. Pois claro.
- Não. A tua mãe teve de ficar em casa nesse dia, se bem me lembro. Estava grávida de ti e tu não te estavas a portar bem. Sim, até lhe fui levar uma fatia de bolo lá a casa...
A caneca de leite muda de mãos, pronta a beber, assim que arrefeça.
- A minha tia nunca lhe perdoou. Agora... quer dizer, desde que... desde que a minha mãe morreu, só fala da doença como se fosse um castigo. Que se não tivesse vindo para cá isso não lhe tinha acontecido.
A testa da menina Ivone enruga-se. As coisas que se dizem às crianças! Ele há com cada uma...
- Bem, isso, a tua tia... Eu não sou de dizer mal das pessoas mas, sinceramente... Nem ao funeral do teu pai veio.
- Porquê?
A menina Ivone suspira. De repente dá-lhe um grande cansaço. Afinal de que serve estar a remexer naquelas coisas? Estende o braço até ao outro lado da mesa e põe a sua mão sobre a do Jaquim, que agarra a caneca do leite.
- Ouve, filho. O teu pai era um bom homem. E a tua mãe amava-o. Foi por isso que veio para cá. O resto... o resto, foi tudo o desgosto. Vai lá alguém perceber as razões dele...
- Ele deixou alguma coisa? Uma carta, um bilhete?
- Não, filho, não. Deixou só um grande desgosto. Daqueles de que nem vale a pena falar...
- Sim?
- Porque é minha madrinha?
Depois de o Zé se ir, quando já voltaram à cozinha e já é altura para um copo de leite quente. Antes de dormir. Agora, pensa ela. Afinal mais cedo que tarde.
Procura o passador para lhe coar a pele do leite e vai respondendo, como se nada fosse.
- Foi a tua mãe que me convidou, filho.
- Mas porquê a si?
- Não sei. Se calhar porque ela não conhecia muita gente cá na altura.
- Ela não estava naquelas fotografias.
O Jaquim não diz a que fotografias se refere mas ela percebe que são as do baptizado do Zé. Pois claro.
- Não. A tua mãe teve de ficar em casa nesse dia, se bem me lembro. Estava grávida de ti e tu não te estavas a portar bem. Sim, até lhe fui levar uma fatia de bolo lá a casa...
A caneca de leite muda de mãos, pronta a beber, assim que arrefeça.
- A minha tia nunca lhe perdoou. Agora... quer dizer, desde que... desde que a minha mãe morreu, só fala da doença como se fosse um castigo. Que se não tivesse vindo para cá isso não lhe tinha acontecido.
A testa da menina Ivone enruga-se. As coisas que se dizem às crianças! Ele há com cada uma...
- Bem, isso, a tua tia... Eu não sou de dizer mal das pessoas mas, sinceramente... Nem ao funeral do teu pai veio.
- Porquê?
A menina Ivone suspira. De repente dá-lhe um grande cansaço. Afinal de que serve estar a remexer naquelas coisas? Estende o braço até ao outro lado da mesa e põe a sua mão sobre a do Jaquim, que agarra a caneca do leite.
- Ouve, filho. O teu pai era um bom homem. E a tua mãe amava-o. Foi por isso que veio para cá. O resto... o resto, foi tudo o desgosto. Vai lá alguém perceber as razões dele...
- Ele deixou alguma coisa? Uma carta, um bilhete?
- Não, filho, não. Deixou só um grande desgosto. Daqueles de que nem vale a pena falar...
sexta-feira, 6 de junho de 2008
38
Sorrisos de fotografia. Para mais tarde recordar a vida como se gostaria que tivesse sido. Não é talvez falta de sinceridade mas mais uma representação de um desejo. Vontade de dizer, neste dia fomos felizes. Gostaríamos de ter sido felizes. E por isso sorri-se para a máquina.
Sentaram-se na sala, depois do jantar e, a pedido do Jaquim, a menina Ivone abriu os armários e de entre a sua colecção de albuns tirou um onde havia mais fotografias do baptizado dele. Eram só quatro, afinal, e nenhuma com o pai dele, ao contrário do que esperava. Só ele, aquele bebé vestido de branco, seguro em braços desconhecidos. Quem era aquela gente que sorria sem verdadeira vontade? Amigas da mãe que não duraram muito, ou gente da vila que depois, mais tarde na vida, tivera mais que fazer.
A menina Ivone, sentada, mãos sobre as coxas como quem espera um sobressalto, olha os rapazes que desfolham outras imagens do passado. Imagina o que se pode seguir, mas espera, com mórbida curiosidade, a ver que voltas dará a vida.
O album é grande. Tem muita gente, muitos anos, casamentos e baptizados. Eles riem-se ocasionalmente das modas. Chapéus com véu dos anos 60, calças à boca de sino dos anos 70, folhos dourados dos anos 80. Alguma surpresa quando vêm versões novas da gente velha de Vila Velha.
Depois, claro, chegam as fotos do baptizado do Zé. Estão no mesmo album, como ela bem sabe. Umas seis páginas. E ela aguarda. Essas páginas são desfolhadas mais lentamente. Ela nota como o olhar do Jaquim procura.
Procura.
Procura.
E encontra, pois então. Está ali. Ainda nessa tarde ela se lembrou, pouco depois do Manel sair e, para confirmar, foi abrir o album. Lá estava. Fechou-o, fechou os olhos e suspirou. E quando o Jaquim, nessa mesma noite, lhe pediu para ver o album, ela decidiu, pois que se desenrole o destino.
Mas afinal, embora se detenha nas fotos, o Jaquim não diz nada, não faz perguntas.
Talvez seja por causa do Zé. O Zé era um bébé lindo. Mesmo agora, de unhas encardidas de sangue, dedos feridos de facas, mas delicados e respeitosos no virar das páginas do vetusto album de memórias fotográficas, tem uma inocência nos olhos que ninguém se atreveria a quebrar.
Sim, inocência. A menina Ivone sabe bem quanto vale.
Nos olhos do Jaquim vê bailar a pergunta, embora fique só ali, sem se abeirar dos lábios. Mas os dedos deslizam-lhe inconscientemente para a foto, roçam ligeiramente o sorriso largo do pai. A felicidade genuina que mostra, segurando nos braços o Zé, seu afilhado.
Sentaram-se na sala, depois do jantar e, a pedido do Jaquim, a menina Ivone abriu os armários e de entre a sua colecção de albuns tirou um onde havia mais fotografias do baptizado dele. Eram só quatro, afinal, e nenhuma com o pai dele, ao contrário do que esperava. Só ele, aquele bebé vestido de branco, seguro em braços desconhecidos. Quem era aquela gente que sorria sem verdadeira vontade? Amigas da mãe que não duraram muito, ou gente da vila que depois, mais tarde na vida, tivera mais que fazer.
A menina Ivone, sentada, mãos sobre as coxas como quem espera um sobressalto, olha os rapazes que desfolham outras imagens do passado. Imagina o que se pode seguir, mas espera, com mórbida curiosidade, a ver que voltas dará a vida.
O album é grande. Tem muita gente, muitos anos, casamentos e baptizados. Eles riem-se ocasionalmente das modas. Chapéus com véu dos anos 60, calças à boca de sino dos anos 70, folhos dourados dos anos 80. Alguma surpresa quando vêm versões novas da gente velha de Vila Velha.
Depois, claro, chegam as fotos do baptizado do Zé. Estão no mesmo album, como ela bem sabe. Umas seis páginas. E ela aguarda. Essas páginas são desfolhadas mais lentamente. Ela nota como o olhar do Jaquim procura.
Procura.
Procura.
E encontra, pois então. Está ali. Ainda nessa tarde ela se lembrou, pouco depois do Manel sair e, para confirmar, foi abrir o album. Lá estava. Fechou-o, fechou os olhos e suspirou. E quando o Jaquim, nessa mesma noite, lhe pediu para ver o album, ela decidiu, pois que se desenrole o destino.
Mas afinal, embora se detenha nas fotos, o Jaquim não diz nada, não faz perguntas.
Talvez seja por causa do Zé. O Zé era um bébé lindo. Mesmo agora, de unhas encardidas de sangue, dedos feridos de facas, mas delicados e respeitosos no virar das páginas do vetusto album de memórias fotográficas, tem uma inocência nos olhos que ninguém se atreveria a quebrar.
Sim, inocência. A menina Ivone sabe bem quanto vale.
Nos olhos do Jaquim vê bailar a pergunta, embora fique só ali, sem se abeirar dos lábios. Mas os dedos deslizam-lhe inconscientemente para a foto, roçam ligeiramente o sorriso largo do pai. A felicidade genuina que mostra, segurando nos braços o Zé, seu afilhado.
quarta-feira, 4 de junho de 2008
37
O medo não justifica tudo. E também não explica a cobardia. Ou a perguiça. Lassidez.
Dentro do seu coração, tão lacerado como o de Jesus, ela tem uma resposta. Só que não vale a pena. Agora já não.
Idália. O seu nome, Idália, na boca dele. Tão sagrado como o de Jesus, lembra-se ela. Idália de Jesus.
- Idália! Não chore, Idália!
- Deixe padre, deixe. Não é nada, não é nada.
Mas as mãos tremiam-lhe. E o lábios. E ele a ver. Ai Jesus, a vergonha, ele a ver… O padre a ver, que já não estavam no confessionário. A confissão arrastara-se até à sacristia, sacrosanta antecâmara dos mistérios da missa. Ali nunca tinha ela entrado.
- Sente-se então Idália. Va lá. Vai ver que vai ser um dia bonito. Pense nisso. É uma alegria, afinal de contas.
Talvez. Mas ela, fazendo esse esforço, só consegue pensar na trabalheira. Os bolos, os convidados, a vela…
- Então, que dia quer para o baptizado?
Ele pegou já no livro grande e na caneta. Quando finalmente ela consegue limpar as lágrimas e parar o tremor dos lábios, responde.
- No mês que vem, o primeiro Domingo. Pode ser?
- Pois claro que pode, diz ele. E sorri.
Como um anjo.
Ai Jesus, como um anjo. Ainda assim, ainda tem aquilo na cabeça.
- Mas o Limbo, padre, como é?
Ele suspira.
- Olhe Idália, isso nem nós sabemos bem. Até há quem na Igreja diga que não existe. Mas, a existir, não está no Céu nem no Inferno. É apenas um sítio onde talvez exista alguma felicidade natural, que é coisa que pertence às crianças. Mas por outro lado é longe de Deus e isso é suficiente para que não seja o Paraíso… Há também quem diga que Deus acolhe essas crianças directamente no seu seio. E outros que dizem que as suas almas simplesmente não chegam a existir por não serem baptizadas, não terem nome.
- Eu dei-lhe um nome…
Ele espera. Finalmente ela diz:
- Eu chamava-lhe Susana.
Ele pega-lhe na mão.
- Era um bom nome. - diz. - Apropriado. Susana significa “pura como um lírio”, sabia?
Ela abana a cabeça.
- Não, não sabia.
- Idália, vê? Você é muito mais bonita quando sorri.
Dentro do seu coração, tão lacerado como o de Jesus, ela tem uma resposta. Só que não vale a pena. Agora já não.
Idália. O seu nome, Idália, na boca dele. Tão sagrado como o de Jesus, lembra-se ela. Idália de Jesus.
- Idália! Não chore, Idália!
- Deixe padre, deixe. Não é nada, não é nada.
Mas as mãos tremiam-lhe. E o lábios. E ele a ver. Ai Jesus, a vergonha, ele a ver… O padre a ver, que já não estavam no confessionário. A confissão arrastara-se até à sacristia, sacrosanta antecâmara dos mistérios da missa. Ali nunca tinha ela entrado.
- Sente-se então Idália. Va lá. Vai ver que vai ser um dia bonito. Pense nisso. É uma alegria, afinal de contas.
Talvez. Mas ela, fazendo esse esforço, só consegue pensar na trabalheira. Os bolos, os convidados, a vela…
- Então, que dia quer para o baptizado?
Ele pegou já no livro grande e na caneta. Quando finalmente ela consegue limpar as lágrimas e parar o tremor dos lábios, responde.
- No mês que vem, o primeiro Domingo. Pode ser?
- Pois claro que pode, diz ele. E sorri.
Como um anjo.
Ai Jesus, como um anjo. Ainda assim, ainda tem aquilo na cabeça.
- Mas o Limbo, padre, como é?
Ele suspira.
- Olhe Idália, isso nem nós sabemos bem. Até há quem na Igreja diga que não existe. Mas, a existir, não está no Céu nem no Inferno. É apenas um sítio onde talvez exista alguma felicidade natural, que é coisa que pertence às crianças. Mas por outro lado é longe de Deus e isso é suficiente para que não seja o Paraíso… Há também quem diga que Deus acolhe essas crianças directamente no seu seio. E outros que dizem que as suas almas simplesmente não chegam a existir por não serem baptizadas, não terem nome.
- Eu dei-lhe um nome…
Ele espera. Finalmente ela diz:
- Eu chamava-lhe Susana.
Ele pega-lhe na mão.
- Era um bom nome. - diz. - Apropriado. Susana significa “pura como um lírio”, sabia?
Ela abana a cabeça.
- Não, não sabia.
- Idália, vê? Você é muito mais bonita quando sorri.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
36
O cão está a olhar para os dois, à espera que algo aconteça, língua pendurada. Mas não acontece nada e ele resolve cheirar ali em volta. Pode ser que encontre um pau. Um pau era bom. Se lho atirassem ele podia ir a correr buscá-lo.
- Tomamos banho? - pergunta o Zé.
Jaquim abana a cabeça, franze os sobrolhos. Vira-se para trás e começa a andar de volta para a vila.
- Anda. Já está quase na hora de jantar. A madrinha vai estar à espera.
Voltar à estrada de alcatrão ainda são uns minutos largos e os dois rapazes concentram-se no suor, no pó, nas ervas secas, no cascalho que lhes foge debaixo dos pés.
A meio caminho o Zé assobia ao cão para lhe lembrar que tem de vir com eles. E o cão vem, a correr disparado. Ultrapassa-os e desaparece de vista.
- Já vai para a estrada, cabrão do cão!
O Jaquim percebe a preocupação do Zé. Ouviu muitas vezes a história do Charlot e a furgoneta dos ciganos. Inclusivé nas diferentes versões da menina Ivone e do senhor Manel. É por isso que diz:
- Não tenhas medo.
E até chegarem a casa da madrinha não dizem mais nada e o Zé sabe que ainda tem um amigo e que não precisa ter medo.
- Tomamos banho? - pergunta o Zé.
Jaquim abana a cabeça, franze os sobrolhos. Vira-se para trás e começa a andar de volta para a vila.
- Anda. Já está quase na hora de jantar. A madrinha vai estar à espera.
Voltar à estrada de alcatrão ainda são uns minutos largos e os dois rapazes concentram-se no suor, no pó, nas ervas secas, no cascalho que lhes foge debaixo dos pés.
A meio caminho o Zé assobia ao cão para lhe lembrar que tem de vir com eles. E o cão vem, a correr disparado. Ultrapassa-os e desaparece de vista.
- Já vai para a estrada, cabrão do cão!
O Jaquim percebe a preocupação do Zé. Ouviu muitas vezes a história do Charlot e a furgoneta dos ciganos. Inclusivé nas diferentes versões da menina Ivone e do senhor Manel. É por isso que diz:
- Não tenhas medo.
E até chegarem a casa da madrinha não dizem mais nada e o Zé sabe que ainda tem um amigo e que não precisa ter medo.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
35
Porque é tudo silêncio.
Como o silêncio sério que se houve debaixo de água depois da ruidosa alegria do mergulho, quando a pressão nos ouvidos nos lembra que não somos dali e nos ameaça de morte.
O silêncio da borracha dos ténis nos corredores do hospital.
O silêncio dos travões do metro em hora de ponta.
O silêncio da campaínha a anunciar o fim de uma aula.
O grande, enorme e ensurdecedor silêncio da cantina do liceu.
Porque a única coisa que se ouve são lágrimas nocturnas que se imaginam a correr no quarto ao lado, soando muito mais alto que os carros e as motas acelerando avenida acima com ódio aos semáforos.
Como o silêncio sério que se houve debaixo de água depois da ruidosa alegria do mergulho, quando a pressão nos ouvidos nos lembra que não somos dali e nos ameaça de morte.
O silêncio da borracha dos ténis nos corredores do hospital.
O silêncio dos travões do metro em hora de ponta.
O silêncio da campaínha a anunciar o fim de uma aula.
O grande, enorme e ensurdecedor silêncio da cantina do liceu.
Porque a única coisa que se ouve são lágrimas nocturnas que se imaginam a correr no quarto ao lado, soando muito mais alto que os carros e as motas acelerando avenida acima com ódio aos semáforos.
terça-feira, 27 de maio de 2008
34
- Lembras-te?
O Jaquim assente. Tanto se lembra que tem um assomo de felicidade ao ver que está tudo na mesma. A tábua dos mergulhos pregada à raiz da árvore. A ribeira correndo parada e a festa de insectos. O silêncio de insectos. O sol a ferir as sombras aqui e ali, verdejando a água.
O Zé sorri quando o Jaquim sorri.
(…nem tudo está perdido, nem tudo está perdido...)
- Ainda vens para aqui?
Às vezes. Mas é mais os miúdos. A água dá-me pela cintura. A gente agora vai mais é às piscinas da câmara. Mas é no Verão. E paga-se…
- Como é que a gente dava mergulhos dali?
- Dantes havia mais água.
- Ah, pois é… E à barragem, ainda vão?
- Ainda há quem vá. Mas como é o Açoreano que guia, a gente vai mais é às piscinas porque há gajas…
Riem-se.
- …e cerveja.
E aqui o Zé lembra-se de contar a história do acidente com a placa de sinalização. Como Vila Velha foi parar ao chão.
E voltam a rir-se. É bom rir. Faz de conta que o agora ainda é o dantes. Mas o Zé tem de tocar na distância e pergunta:
- Então e o pessoal lá de Lisboa, é porreiro?
O Jaquim encolhe os ombros.
É só isso que tem para dizer.
O Jaquim assente. Tanto se lembra que tem um assomo de felicidade ao ver que está tudo na mesma. A tábua dos mergulhos pregada à raiz da árvore. A ribeira correndo parada e a festa de insectos. O silêncio de insectos. O sol a ferir as sombras aqui e ali, verdejando a água.
O Zé sorri quando o Jaquim sorri.
(…nem tudo está perdido, nem tudo está perdido...)
- Ainda vens para aqui?
Às vezes. Mas é mais os miúdos. A água dá-me pela cintura. A gente agora vai mais é às piscinas da câmara. Mas é no Verão. E paga-se…
- Como é que a gente dava mergulhos dali?
- Dantes havia mais água.
- Ah, pois é… E à barragem, ainda vão?
- Ainda há quem vá. Mas como é o Açoreano que guia, a gente vai mais é às piscinas porque há gajas…
Riem-se.
- …e cerveja.
E aqui o Zé lembra-se de contar a história do acidente com a placa de sinalização. Como Vila Velha foi parar ao chão.
E voltam a rir-se. É bom rir. Faz de conta que o agora ainda é o dantes. Mas o Zé tem de tocar na distância e pergunta:
- Então e o pessoal lá de Lisboa, é porreiro?
O Jaquim encolhe os ombros.
É só isso que tem para dizer.
sábado, 24 de maio de 2008
33
Ai as mulheres.
No entanto o Manel do talho sai daquela casa com um peso na algibeira da camisa e uma secreta leveza na alma. A cólera é coisa que lhe vem e vai como um piscar de olhos. Tudo se há-de acabar. Não há-de ser preciso fazer nada. Se para que tudo se resolva é preciso fazer nada, então faça-se nada. Para ele está bem assim.
Aguenta-se ainda ali um momento, debaixo do Santo António de azulejos, porta trancada atrás de si, e chega a mão ao peito, tira a foto, só para a certeza.
Há-de queimá-la, promete.
Mas isso outro dia. Agora tem de a ver, de olhar muito para ela. Olhar muito para ele.
As mulheres, que sabem elas disto?
Todas aquelas mamas, todas aquelas coxas são só ardis. Boas carnes, mas caras. Esse preço conheçe-o ele, que o anda a pagar há tantos anos. A prisão do lar, mesmo com o benefício das cuecas, calças e camisas lavadas.
Que percebem as mulheres de tomates que é preciso aliviar? Da camaradagem? Da tropa? Dos bons tempos?
Com o Armando nunca houvera uma etiqueta de preço. Acontecera. E continuara a acontecer até a vida voltar ao civil. E cada um fora à sua vida.
E depois, um dia, no matadouro, lá estava ele. Viera. E nunca se tinha falado nisso. Não houvera promessas nem planos. E nem depois disso. Resolviam-se no mato, algures entre o matadouro e a vila, uns olivais, uns barrancos. Às vezes até a chover ou com um frio que desafiava a tusa. Mas resolviam-se. E estava tudo bem assim. Não era preciso fazer nada.
Manel olha para a foto. O sorriso do Armando.
Que sabia ele, um homem do talho? Como havia de adivinhar?
Como havia de saber que durante esses anos de mato, todas as vezes que esvaziava os colhões, enchia o cu do Armando com poesia? E adivinhava lá ele que a poesia consegue matar de tristeza?
Saíra caro ao Armando, não ter um preço.
Agora há dias em que o Manel do talho quase se arrepende. De quê nem sabe bem. Mas arranja umas flores, vai ao cemitério e concede-se o paneleiro luxo de sentir saudades.
Os bons tempos.
No entanto o Manel do talho sai daquela casa com um peso na algibeira da camisa e uma secreta leveza na alma. A cólera é coisa que lhe vem e vai como um piscar de olhos. Tudo se há-de acabar. Não há-de ser preciso fazer nada. Se para que tudo se resolva é preciso fazer nada, então faça-se nada. Para ele está bem assim.
Aguenta-se ainda ali um momento, debaixo do Santo António de azulejos, porta trancada atrás de si, e chega a mão ao peito, tira a foto, só para a certeza.
Há-de queimá-la, promete.
Mas isso outro dia. Agora tem de a ver, de olhar muito para ela. Olhar muito para ele.
As mulheres, que sabem elas disto?
Todas aquelas mamas, todas aquelas coxas são só ardis. Boas carnes, mas caras. Esse preço conheçe-o ele, que o anda a pagar há tantos anos. A prisão do lar, mesmo com o benefício das cuecas, calças e camisas lavadas.
Que percebem as mulheres de tomates que é preciso aliviar? Da camaradagem? Da tropa? Dos bons tempos?
Com o Armando nunca houvera uma etiqueta de preço. Acontecera. E continuara a acontecer até a vida voltar ao civil. E cada um fora à sua vida.
E depois, um dia, no matadouro, lá estava ele. Viera. E nunca se tinha falado nisso. Não houvera promessas nem planos. E nem depois disso. Resolviam-se no mato, algures entre o matadouro e a vila, uns olivais, uns barrancos. Às vezes até a chover ou com um frio que desafiava a tusa. Mas resolviam-se. E estava tudo bem assim. Não era preciso fazer nada.
Manel olha para a foto. O sorriso do Armando.
Que sabia ele, um homem do talho? Como havia de adivinhar?
Como havia de saber que durante esses anos de mato, todas as vezes que esvaziava os colhões, enchia o cu do Armando com poesia? E adivinhava lá ele que a poesia consegue matar de tristeza?
Saíra caro ao Armando, não ter um preço.
Agora há dias em que o Manel do talho quase se arrepende. De quê nem sabe bem. Mas arranja umas flores, vai ao cemitério e concede-se o paneleiro luxo de sentir saudades.
Os bons tempos.
domingo, 20 de abril de 2008
32
- Achaste-a?
Ele assente.
- Deixa ver.
A menina Ivone estende a mão e espera. E ele acaba por ceder. Tudo se conspurca, tarde ou cedo nesta vida, afinal de contas. Mas ela, embora olhe um demorado minuto para a fotografia, não diz nada quando lha devolve. Vira-lhe as costas e vai para o lava-louças.
- Isto tem um preço... - diz ela depois.
- É só uma fotografia. Acha que isto vale alguma coisa?
- Tu lá sabes o que vale. Nem sei como é que a Luísa não a queimou.
- A Luísa era uma boa mulher...
- Boa demais. Mas se julgas que te perdoou, andaste bem enganado. Soube foi conter o rancor. Dever ter sido isso que se transformou naquele cancro... Não faz bem a ninguém conter tanta coisa azeda no peito.
- Então o que é que quer? Diga lá...
- O Zé. Quando é que lhe começas a pagar o que lhe é devido?
- Outra vez essa história?! Mas quando é que vocês deixam de me azucrinar com isso? Acha que ando aí a nadar em dinheiro? E falta-lhe alguma coisa, falta?!
A voz do senhor Manel já se está a erguer, pronta para a luta. Mas a menina Ivone ergue solenemente a palma de uma mão e ele cala-se.
- Vais fazer só uma coisa. Quando ele te disser que se vai embora, tu pagas-lhe o que lhe deves e deixa-lo ir.
- Ir-se embora?! Que raio de conversa é essa? O que é você lhe anda a meter na cabeça?
A menina Ivone suspira.
- Sempre foste um grande tosco. Eu lá preciso de andar a armar intrigas? O que é que achas que vai acontecer no fim desta semana, quando o Jaquim voltar para Lisboa?
O senhor Manel olha para ela sem conseguir responder.
- Porque é que o Armando se mudou para cá? Para ser veterinário num matadouro neste fim de mundo? Não achas que, pela mesma ordem de idéias, o teu filho prefere ser talhante em Lisboa?
Ele fica petrificado. Primeiro muito pálido, depois corado até à raiz dos cabelos.
- Você cale-se, sua puta. Você cale-se...
Ela fixa-o nos olhos. Sem rasto de medo.
- É esse o preço: deixa-o ir. Quando ele quiser ir, deixa-o.
Ele assente.
- Deixa ver.
A menina Ivone estende a mão e espera. E ele acaba por ceder. Tudo se conspurca, tarde ou cedo nesta vida, afinal de contas. Mas ela, embora olhe um demorado minuto para a fotografia, não diz nada quando lha devolve. Vira-lhe as costas e vai para o lava-louças.
- Isto tem um preço... - diz ela depois.
- É só uma fotografia. Acha que isto vale alguma coisa?
- Tu lá sabes o que vale. Nem sei como é que a Luísa não a queimou.
- A Luísa era uma boa mulher...
- Boa demais. Mas se julgas que te perdoou, andaste bem enganado. Soube foi conter o rancor. Dever ter sido isso que se transformou naquele cancro... Não faz bem a ninguém conter tanta coisa azeda no peito.
- Então o que é que quer? Diga lá...
- O Zé. Quando é que lhe começas a pagar o que lhe é devido?
- Outra vez essa história?! Mas quando é que vocês deixam de me azucrinar com isso? Acha que ando aí a nadar em dinheiro? E falta-lhe alguma coisa, falta?!
A voz do senhor Manel já se está a erguer, pronta para a luta. Mas a menina Ivone ergue solenemente a palma de uma mão e ele cala-se.
- Vais fazer só uma coisa. Quando ele te disser que se vai embora, tu pagas-lhe o que lhe deves e deixa-lo ir.
- Ir-se embora?! Que raio de conversa é essa? O que é você lhe anda a meter na cabeça?
A menina Ivone suspira.
- Sempre foste um grande tosco. Eu lá preciso de andar a armar intrigas? O que é que achas que vai acontecer no fim desta semana, quando o Jaquim voltar para Lisboa?
O senhor Manel olha para ela sem conseguir responder.
- Porque é que o Armando se mudou para cá? Para ser veterinário num matadouro neste fim de mundo? Não achas que, pela mesma ordem de idéias, o teu filho prefere ser talhante em Lisboa?
Ele fica petrificado. Primeiro muito pálido, depois corado até à raiz dos cabelos.
- Você cale-se, sua puta. Você cale-se...
Ela fixa-o nos olhos. Sem rasto de medo.
- É esse o preço: deixa-o ir. Quando ele quiser ir, deixa-o.
quarta-feira, 16 de abril de 2008
31
Uma fotografia, para mais tarde recordar. Vinte e cinco anos mais tarde, para ser mais exacto. Ou mais ou menos, já não sabe bem.
Ele, vejam lá, ainda com cabelo, ainda sem barriga. Bons tempos.
...bons tempos...
E o Armando, sorrindo.
Não havia de sorrir, o cabrão?
Tinha sido um bom dia, depois de uma boa noite, e a vida no exército era fácil. Já tinham acabado as guerras e as revoluções. E ali estavam eles, dois alegres magalas, frente ao quartel, vivendo os bons tempos.
É disso que ele se quer lembrar, dos bons tempos. Está tudo ali naquela fotografia, no cigarro que uma das mãos dele segura, na mão do Armando sobre o seu ombro.
O mal dos bons tempos é uma pessoa não saber com certeza se os tempos são os bons quando os vive. Com os maus é mais fácil, nota-se logo. Mas é preciso viver uma merda de cinquenta anos para depois conseguir olhar para trás e perceber que afinal só dois ou três é que valeram a pena e o resto andou tudo pelo assim-assim.
Não é que ele seja um desses mariconços nostálgicos. Cagando e andando, é mais o seu lema. Mas a alguma memória tem uma pessoa de se agarrar. Nem que seja uma fotografia roubada. Que nem é roubo, convence-se, enquanto fecha a caixa o melhor que a fita-cola ainda deixa. Aquilo é mais seu que do Jaquim. O Armando foi sempre mais seu do que de qualquer outra pessoa. E essa é uma dádiva que ele, desde que olhou para trás e viu quais tinham sido os bons tempos, aprendeu a apreciar. Mesmo que agora já seja um bocadinho tarde. Vinte e cinco anos, mais ou menos.
Ele, vejam lá, ainda com cabelo, ainda sem barriga. Bons tempos.
...bons tempos...
E o Armando, sorrindo.
Não havia de sorrir, o cabrão?
Tinha sido um bom dia, depois de uma boa noite, e a vida no exército era fácil. Já tinham acabado as guerras e as revoluções. E ali estavam eles, dois alegres magalas, frente ao quartel, vivendo os bons tempos.
É disso que ele se quer lembrar, dos bons tempos. Está tudo ali naquela fotografia, no cigarro que uma das mãos dele segura, na mão do Armando sobre o seu ombro.
O mal dos bons tempos é uma pessoa não saber com certeza se os tempos são os bons quando os vive. Com os maus é mais fácil, nota-se logo. Mas é preciso viver uma merda de cinquenta anos para depois conseguir olhar para trás e perceber que afinal só dois ou três é que valeram a pena e o resto andou tudo pelo assim-assim.
Não é que ele seja um desses mariconços nostálgicos. Cagando e andando, é mais o seu lema. Mas a alguma memória tem uma pessoa de se agarrar. Nem que seja uma fotografia roubada. Que nem é roubo, convence-se, enquanto fecha a caixa o melhor que a fita-cola ainda deixa. Aquilo é mais seu que do Jaquim. O Armando foi sempre mais seu do que de qualquer outra pessoa. E essa é uma dádiva que ele, desde que olhou para trás e viu quais tinham sido os bons tempos, aprendeu a apreciar. Mesmo que agora já seja um bocadinho tarde. Vinte e cinco anos, mais ou menos.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
30
Ela fica sentada, a menina Ivone, ouvindo o barulho que ele faz arredando caixas na arrecadação do quintal. Sentada à mesa, rodeada de bolos e a pensar em coisas que não se dizem.
É tarde para se livrar da vida pelas próprias mãos, como fez o Armando. Homem esperto. Mas se aguentou até agora, pouco mais há-de faltar.
Um dos gatos entra na cozinha, não sem primeiro se roçar na ombreira da porta, na perna de uma cadeira. Só depois acede a ser coçado debaixo do queixo. Vem refugiar-se da inusitada usurpação do seu território. Não que a cozinha lhe desagrade. Mas a esta hora o quintal é por direito seu. Está indignado. Mia. A menina Ivone entende que ele tem fome e, sem vontade de se levantar, pega numa das popias sobre a mesa, parte um pedacinho e estende-lho.
O gato só precisa de cheirar uma vez para perceber que aquilo é comida que não lhe interessa. Levanta o rabo ainda mais ofendido e, sem cerimónias, regressa ao quintal.
O instinto dos animais é uma coisa estranha e ela nunca o compreendeu. Mas fora o fascínio. Um pitada de vaidade. E talvez inocência. Sim, talvez. Se deixara que o miúdo lhe chupasse os mamilos fora porque gostara de se imaginar mamã. Como se a sesta fosse uma brincadeira de faz-de-conta. E havia qualquer coisa de certo naquilo. Ela enrolava-se à volta dele e havia paz. As brincadeiras dele eram tão selvagens… Como são sempre as brincadeiras dos miúdos, mas chegava à hora da sesta e ele ainda tinha o coração a bater, das correrias e não acalmava. Por isso ela se deitara, abraçara-o e cantara uma cantiga.
Oliveirinha da serra.
E depois tinham cantado outra, juntos.
Toda a vida fui pastor.
Era um abraço quente, muito bom.
Toda a vida guardei gado.
Ao dezasseis anos ela já tinha os seios fartos. Aos cinco anos, com certeza deve ter sido o instinto que o guiou. Uma memória.
Tenho uma nódoa no peito, ai, ai…
É tarde para se livrar da vida pelas próprias mãos, como fez o Armando. Homem esperto. Mas se aguentou até agora, pouco mais há-de faltar.
Um dos gatos entra na cozinha, não sem primeiro se roçar na ombreira da porta, na perna de uma cadeira. Só depois acede a ser coçado debaixo do queixo. Vem refugiar-se da inusitada usurpação do seu território. Não que a cozinha lhe desagrade. Mas a esta hora o quintal é por direito seu. Está indignado. Mia. A menina Ivone entende que ele tem fome e, sem vontade de se levantar, pega numa das popias sobre a mesa, parte um pedacinho e estende-lho.
O gato só precisa de cheirar uma vez para perceber que aquilo é comida que não lhe interessa. Levanta o rabo ainda mais ofendido e, sem cerimónias, regressa ao quintal.
O instinto dos animais é uma coisa estranha e ela nunca o compreendeu. Mas fora o fascínio. Um pitada de vaidade. E talvez inocência. Sim, talvez. Se deixara que o miúdo lhe chupasse os mamilos fora porque gostara de se imaginar mamã. Como se a sesta fosse uma brincadeira de faz-de-conta. E havia qualquer coisa de certo naquilo. Ela enrolava-se à volta dele e havia paz. As brincadeiras dele eram tão selvagens… Como são sempre as brincadeiras dos miúdos, mas chegava à hora da sesta e ele ainda tinha o coração a bater, das correrias e não acalmava. Por isso ela se deitara, abraçara-o e cantara uma cantiga.
Oliveirinha da serra.
E depois tinham cantado outra, juntos.
Toda a vida fui pastor.
Era um abraço quente, muito bom.
Toda a vida guardei gado.
Ao dezasseis anos ela já tinha os seios fartos. Aos cinco anos, com certeza deve ter sido o instinto que o guiou. Uma memória.
Tenho uma nódoa no peito, ai, ai…
sexta-feira, 11 de abril de 2008
29
Ao fundo do quintal. Foi ali, na arrecadação que as arrumaram, as caixas. Uma coisa temporária, até se poder fazer uma mudança como é devido. Mas tinham ficado. Foram ficando. Quatro anos.
Eram principalmente livros, que no urbano apartamento da irmã da professora não havia lugar para eles. Já para a doença, o miúdo e outros fardos sabe Deus, quanto mais para livros. E por isso tinham levado só as malas, roupas e pouco mais.
Quase todos os caixotes dizem “livros”. Mas há um que diz “cozinha”, outro “brinquedos”. Assim se resumem vidas deixadas para trás.
Há ainda outro, o que ele procurava, mais antigo, parece, pelo grau de amarelecimento e macia humidade do cartão. Vinte anos, quase, calcula ele. Saberia que era este, sem precisar de ler as tímidas letras escritas num canto: “Armando”.
O senhor Manel pára um momento para recuperar o fôlego. São pesados, os cabrões dos livros, as putas das caixas. Senta-se numa e fica a olhar para esta.
Passa os dedos pela fita-cola. Era da boa. Está ali para durar. Pelo menos até ele a arrancar e deixar um rasto de violação. Mas que se lixe. Encontra-lhe o fim e começa a puxar.
Abrir a caixa leva o tempo de três batidas de coração. Aceleradas.
Eram principalmente livros, que no urbano apartamento da irmã da professora não havia lugar para eles. Já para a doença, o miúdo e outros fardos sabe Deus, quanto mais para livros. E por isso tinham levado só as malas, roupas e pouco mais.
Quase todos os caixotes dizem “livros”. Mas há um que diz “cozinha”, outro “brinquedos”. Assim se resumem vidas deixadas para trás.
Há ainda outro, o que ele procurava, mais antigo, parece, pelo grau de amarelecimento e macia humidade do cartão. Vinte anos, quase, calcula ele. Saberia que era este, sem precisar de ler as tímidas letras escritas num canto: “Armando”.
O senhor Manel pára um momento para recuperar o fôlego. São pesados, os cabrões dos livros, as putas das caixas. Senta-se numa e fica a olhar para esta.
Passa os dedos pela fita-cola. Era da boa. Está ali para durar. Pelo menos até ele a arrancar e deixar um rasto de violação. Mas que se lixe. Encontra-lhe o fim e começa a puxar.
Abrir a caixa leva o tempo de três batidas de coração. Aceleradas.
quarta-feira, 9 de abril de 2008
28
É só um momento. Um minúsculo mini-nano-segundo, mas ainda lá está. Ainda a sente. A dor. Faca tão antiga que devia ter ferrugem, mas não. É imediata, aguda e nunca fica romba. Nunca perde a pontaria, acerta em cheio no coração.
Mas passa.
Passa num instante.
É ferida curada, mesmo que doa. E nunca, nunca mais, ela vai permitir que se volte a abrir.
Ela lembra-se. Claro que se lembra. Como se fosse possível esquecer... Oh, tamanha tolice de juventude!
Um bébé tão lindo, dizia toda a gente. E assim era, mesmo que aos cinco anos já ninguém seja bébé. Era o sorriso e os olhos deslumbrados do Manel, Manelinho, que conquistavam toda a gente.
O tio Celestino montava-o nos ombros e lá iam os dois, rua abaixo. A criança mais linda, rindo aos ombros do homem mais lindo. Não haviam todos de os mirar... Acenos de moças e matronas babadas. Inveja dos homens. O mundo era deles naqueles momentos.
Dizem que Deus leva os que ama. De certeza. Como não havia Deus de se enamorar de Celestino? Talvez até tenha sido ele a enviar um anjo para mexer nos travões e encaminhar-lhe o carro para a ribeira... Ou feito um pacto com o Diabo: deixa-me o Celestino e a alma da Ivone é tua, para atormentares.
Isso também era quase certo. Que no dia em que o Manel entrara naquela casa, fora na qualidade de intrumento do Demo. Mas quem poderia saber isso ao olhar para aqueles caracóis, para aquelas bochechinhas rosadas? E aqueles olhos tristes que continuavam a perguntar, onde está o papá? Não faria qualquer um o que fosse preciso para os voltar a ver iluminados?
Mas passa.
Passa num instante.
É ferida curada, mesmo que doa. E nunca, nunca mais, ela vai permitir que se volte a abrir.
Ela lembra-se. Claro que se lembra. Como se fosse possível esquecer... Oh, tamanha tolice de juventude!
Um bébé tão lindo, dizia toda a gente. E assim era, mesmo que aos cinco anos já ninguém seja bébé. Era o sorriso e os olhos deslumbrados do Manel, Manelinho, que conquistavam toda a gente.
O tio Celestino montava-o nos ombros e lá iam os dois, rua abaixo. A criança mais linda, rindo aos ombros do homem mais lindo. Não haviam todos de os mirar... Acenos de moças e matronas babadas. Inveja dos homens. O mundo era deles naqueles momentos.
Dizem que Deus leva os que ama. De certeza. Como não havia Deus de se enamorar de Celestino? Talvez até tenha sido ele a enviar um anjo para mexer nos travões e encaminhar-lhe o carro para a ribeira... Ou feito um pacto com o Diabo: deixa-me o Celestino e a alma da Ivone é tua, para atormentares.
Isso também era quase certo. Que no dia em que o Manel entrara naquela casa, fora na qualidade de intrumento do Demo. Mas quem poderia saber isso ao olhar para aqueles caracóis, para aquelas bochechinhas rosadas? E aqueles olhos tristes que continuavam a perguntar, onde está o papá? Não faria qualquer um o que fosse preciso para os voltar a ver iluminados?
terça-feira, 8 de abril de 2008
27
- O que é que queres daqui?
- Atão, é assim que recebe as visitas?
- Visita? Não deve estar a soprar bom vento... Entra lá... E limpa os pés no tapete, que acabei de passar cera no chão não há dez minutos!
- Ainda cheira. Teve a fazer bolos?
- Tive. E tivesse sabido que vinhas “de visita” tinha arranjado uns foguetes para compôr a festa. A que se deve tamanha honra?
- Você não perdoa...
- Ó filho... eu sou quase santa mas ainda não sou Jesus. Anda lá!
Vira-lhe as costas e volta para a cozinha. O Manel do talho segue-a pelo corredor afora, um pouco surpreso por aquela casa lhe parecer tão apertada de repente.
- Esta casa parece que encolheu.
- Não tenho reparado. Se calhar ando a encolher com ela. Já tu, não páras de crescer... O que é que o médico diz disso?
- Isto já não tem remédio - diz ele sorrindo e acariciando a pança.
Mas ele estava era a lembrar-se de quando andava de triciclo naquele corredor. Do tempo em que os obstáculos eram os pés dos armários e não os fetos colossais que agora lhe atrapalham a passagem como fosse entrar na selva escura.
A idéia que tem daquela casa é do tempo em que viveu nela. O sorriso que ainda lhe fica na cara por algum tempo não tem nada a ver com a conversa nem com o seu orgulho (fingido) na barriga. Tem a ver com memórias de uma infância particularmente feliz. Aquele padrão dos azulejos do corredor conhece ele de cor. Por ali rodou o triciclo, marcharam soldados de chumbo, navegaram barcos de papel.
Sentam-se os dois à mesa da cozinha. Ele na esperança de que a menina Ivone lhe sirva bolo, mas ela senta-se também, frente a ele, braços cruzados ao peito, à espera.
- Lembra-se de quando eu passava aqui as tardes? Já nessa altura estava sempre a fazer bolos...
- Pois sim, deixa-te lá de conversas, que eu tenho mais que fazer. O que é que tu queres?
- Atão, é assim que recebe as visitas?
- Visita? Não deve estar a soprar bom vento... Entra lá... E limpa os pés no tapete, que acabei de passar cera no chão não há dez minutos!
- Ainda cheira. Teve a fazer bolos?
- Tive. E tivesse sabido que vinhas “de visita” tinha arranjado uns foguetes para compôr a festa. A que se deve tamanha honra?
- Você não perdoa...
- Ó filho... eu sou quase santa mas ainda não sou Jesus. Anda lá!
Vira-lhe as costas e volta para a cozinha. O Manel do talho segue-a pelo corredor afora, um pouco surpreso por aquela casa lhe parecer tão apertada de repente.
- Esta casa parece que encolheu.
- Não tenho reparado. Se calhar ando a encolher com ela. Já tu, não páras de crescer... O que é que o médico diz disso?
- Isto já não tem remédio - diz ele sorrindo e acariciando a pança.
Mas ele estava era a lembrar-se de quando andava de triciclo naquele corredor. Do tempo em que os obstáculos eram os pés dos armários e não os fetos colossais que agora lhe atrapalham a passagem como fosse entrar na selva escura.
A idéia que tem daquela casa é do tempo em que viveu nela. O sorriso que ainda lhe fica na cara por algum tempo não tem nada a ver com a conversa nem com o seu orgulho (fingido) na barriga. Tem a ver com memórias de uma infância particularmente feliz. Aquele padrão dos azulejos do corredor conhece ele de cor. Por ali rodou o triciclo, marcharam soldados de chumbo, navegaram barcos de papel.
Sentam-se os dois à mesa da cozinha. Ele na esperança de que a menina Ivone lhe sirva bolo, mas ela senta-se também, frente a ele, braços cruzados ao peito, à espera.
- Lembra-se de quando eu passava aqui as tardes? Já nessa altura estava sempre a fazer bolos...
- Pois sim, deixa-te lá de conversas, que eu tenho mais que fazer. O que é que tu queres?
sexta-feira, 28 de março de 2008
26
Está calor no cemitério. O mármore das campas, saturado de sol, exala um bafo quente de terra e flores cozidas. Efiadas em jarrinhas ou frascos de Tofina, margaridas, gladíolos e jarros desmaiam e apodrecem. Fotos de bem amados, familiares queridos, temidos ou odiados, vão perdendo cores.
É a primeira vez que entra neste cemitério embora o conheça bem de fora. O quadrado murado a branco e os negros ciprestes cheios de mistério. É ali que está o pai. Sabe-o mesmo sem que a mãe lho tenha dito. Por ela o evitar é que ele sabia.
Os outros, a caminho da ribeira em tardes de Verão, desafiavam-se sempre a entrar, a pular o muro ou a passar uma noite lá dentro. Ele mantinha-se em silêncio, com um sorriso postiço como camuflagem para responder às conversas tontas e bazofeiras.
Às vezes perguntavam-lhe se acreditava em fantasmas. Contavam-lhe histórias de assombrações, mortos irrequietos que davam voltas na cova. Defuntos vingativos que voltavam para arrastar os seus assassinos para o inferno. Mas ele mantinha um ar impassivo. Era bom nisso.
Ainda é. A manter a calma, a cabeça fria. A fazer nada. A esperar. Sempre a esperar.
Durante os primeiros cinco anos da sua vida esperara que o pai voltasse. De uma longa viagem. De um país distante. E depois, aos seis, quando percebera finalmente o que era a morte, esperara que, por generosa intervenção de um santo ou de um anjo, os céus deixassem a sua alma aparecer ao filho uma noite, nem que fosse por um momento. Só para dizer adeus. Ou, talvez primeiro, um olá. Um mísero olá.
De onde absorvera aquela mitologia católica nem sabia. Estava no ar. Encardia toda a gente em Vila Velha e tingira-o também a ele, apesar de a mãe não ir nem o levar à igreja. Aos Domingos os outros invejavam-no por poder ficar a ver os desenhos animados na televisão. Ele invejava os outros.
Mas depois, aquela fé por contágio acabara por se esterilizar até só lhe restar um resignado ateísmo. Durante o cancro, nem se lembrara de rezar pela mãe, como fizera em criança, pelo pai. Provavelmente porque se cansara de esperar. Se Deus não respondia a rezas era porque não ouvia. E um Deus mouco não merece respeito. Velinhas a santos também lhe parecia um procedimento demasiado burocrático. Para que havia de ir à secretaria se podia falar directamente com o chefe da repartição? A hierarquia celestial deixava-o confuso.
Ainda assim, há qualquer coisa que o comove numa das campas. A imagem de um anjo da guarda. Fixa-a. O gentil anjo guiando a criança, pegando-lhe na mão.
O Zé pega-lhe na mão e diz:
- É aquele.
Jaquim vira-se e olha para onde ele aponta. Uma campa de mármore branco. Então é ali que está.
Mas ali muito pouco há. O nome. Uma data. Apenas isso.
E no entanto, há mais que isso.
Há uma jarra branca, cimentada, imune ao vento. E dentro dela há flores frescas, que só podem ter sido colhidas hoje, ou já teriam desistido de se manter erectas.
É a primeira vez que entra neste cemitério embora o conheça bem de fora. O quadrado murado a branco e os negros ciprestes cheios de mistério. É ali que está o pai. Sabe-o mesmo sem que a mãe lho tenha dito. Por ela o evitar é que ele sabia.
Os outros, a caminho da ribeira em tardes de Verão, desafiavam-se sempre a entrar, a pular o muro ou a passar uma noite lá dentro. Ele mantinha-se em silêncio, com um sorriso postiço como camuflagem para responder às conversas tontas e bazofeiras.
Às vezes perguntavam-lhe se acreditava em fantasmas. Contavam-lhe histórias de assombrações, mortos irrequietos que davam voltas na cova. Defuntos vingativos que voltavam para arrastar os seus assassinos para o inferno. Mas ele mantinha um ar impassivo. Era bom nisso.
Ainda é. A manter a calma, a cabeça fria. A fazer nada. A esperar. Sempre a esperar.
Durante os primeiros cinco anos da sua vida esperara que o pai voltasse. De uma longa viagem. De um país distante. E depois, aos seis, quando percebera finalmente o que era a morte, esperara que, por generosa intervenção de um santo ou de um anjo, os céus deixassem a sua alma aparecer ao filho uma noite, nem que fosse por um momento. Só para dizer adeus. Ou, talvez primeiro, um olá. Um mísero olá.
De onde absorvera aquela mitologia católica nem sabia. Estava no ar. Encardia toda a gente em Vila Velha e tingira-o também a ele, apesar de a mãe não ir nem o levar à igreja. Aos Domingos os outros invejavam-no por poder ficar a ver os desenhos animados na televisão. Ele invejava os outros.
Mas depois, aquela fé por contágio acabara por se esterilizar até só lhe restar um resignado ateísmo. Durante o cancro, nem se lembrara de rezar pela mãe, como fizera em criança, pelo pai. Provavelmente porque se cansara de esperar. Se Deus não respondia a rezas era porque não ouvia. E um Deus mouco não merece respeito. Velinhas a santos também lhe parecia um procedimento demasiado burocrático. Para que havia de ir à secretaria se podia falar directamente com o chefe da repartição? A hierarquia celestial deixava-o confuso.
Ainda assim, há qualquer coisa que o comove numa das campas. A imagem de um anjo da guarda. Fixa-a. O gentil anjo guiando a criança, pegando-lhe na mão.
O Zé pega-lhe na mão e diz:
- É aquele.
Jaquim vira-se e olha para onde ele aponta. Uma campa de mármore branco. Então é ali que está.
Mas ali muito pouco há. O nome. Uma data. Apenas isso.
E no entanto, há mais que isso.
Há uma jarra branca, cimentada, imune ao vento. E dentro dela há flores frescas, que só podem ter sido colhidas hoje, ou já teriam desistido de se manter erectas.
quarta-feira, 26 de março de 2008
25
- Onde é que vamos?
O Jaquim acena só com a mão lá para a frente da estrada.
- Já está calor. Se calhar até dá para ir nadar à ribeira. - diz o Zé.
- Sim, se calhar dá.
Não era na ribeira que o Jaquim estava a pensar, mas o sítio onde quer ir é a meio caminho. O sítio frente ao qual qualquer conversa de Verão arrefecia. Para chegar à ribeira era sempre preciso passar pelo cemitério. Os seus muros brancos e os negros criprestes até já se vêem daqui.
- E tu, quando me vais visitar a Lisboa?
- Hei-de ir, hei-de ir...
Que mais pode ele responder? Nem ao Jaquim consegue dizer nada. Aquilo é como uma falta de ar no peito.
Quando começou a ajudar o pai no talho era ainda menor e disseram-lhe que o governo não deixava que lhe pagassem por causa disso. E depois foram-se acumulando as desculpas. Este mês não há dinheiro. Foi preciso comprar a carrinha nova. Então, paguei-te a carta, do que é que te queixas? Dinheiro para quê, para gastares em cerveja?
Desculpas, ordens, discussões, mas dinheiro que é bom, nada.
Zé Manel nem tem conta no banco. Pois sim, tem trabalho e quem lho dê, tem comida e quem lha faça, tem roupa e quem lha lave e, por enquanto, vai tendo um tecto. Enquanto não fugir. Enquanto não sufocar de vez, enterrado vivo como vive, naquela casa, naquele talho, nesta Vila Velha que envelhece a gente antes do tempo.
O Jaquim acena só com a mão lá para a frente da estrada.
- Já está calor. Se calhar até dá para ir nadar à ribeira. - diz o Zé.
- Sim, se calhar dá.
Não era na ribeira que o Jaquim estava a pensar, mas o sítio onde quer ir é a meio caminho. O sítio frente ao qual qualquer conversa de Verão arrefecia. Para chegar à ribeira era sempre preciso passar pelo cemitério. Os seus muros brancos e os negros criprestes até já se vêem daqui.
- E tu, quando me vais visitar a Lisboa?
- Hei-de ir, hei-de ir...
Que mais pode ele responder? Nem ao Jaquim consegue dizer nada. Aquilo é como uma falta de ar no peito.
Quando começou a ajudar o pai no talho era ainda menor e disseram-lhe que o governo não deixava que lhe pagassem por causa disso. E depois foram-se acumulando as desculpas. Este mês não há dinheiro. Foi preciso comprar a carrinha nova. Então, paguei-te a carta, do que é que te queixas? Dinheiro para quê, para gastares em cerveja?
Desculpas, ordens, discussões, mas dinheiro que é bom, nada.
Zé Manel nem tem conta no banco. Pois sim, tem trabalho e quem lho dê, tem comida e quem lha faça, tem roupa e quem lha lave e, por enquanto, vai tendo um tecto. Enquanto não fugir. Enquanto não sufocar de vez, enterrado vivo como vive, naquela casa, naquele talho, nesta Vila Velha que envelhece a gente antes do tempo.
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